— Alfa é meu nome — disse.
E ele perguntou:
— Esse é teu nome de guerra?
E ele respondeu:
— Não. Esse é meu nome de paz.
(Caio Fernando Abreu. ”Eles”, in: O Ovo Apunhalado)
Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay caminos. Pero el camino se hace al andar”.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido)
Se você quer ouvir, ouça. Mas não pergunte nada além do que eu direi, porque eu não saberia dizer, ou talvez não devesse , ou talvez mesmo eu chegue a dizer — por que não? Se você não quiser ou achar que estou mentindo ou que a história é desinteressante, diga logo, você não precisa ouvir, ninguém precisa ouvir: eu só queria que vocês soubessem que eles estão aqui, no meio de vocês, ainda que vocês não queiram ou não saibam.
(Caio Fernando Abreu. Eles, in: O Ovo Apunhalado)
E essa paranoia, essa desconfiança, esse medo do outro tem sido meu leitmotif nos últimos tempos. Vem de fora pra dentro — porque a cidade grande, o trabalho no jornal, o ninho de cobras da, aarrgh!, vida-literária só fazem aumentar isso; mas vem também — e isso é que me assusta — de dentro pra fora, de núcleos doentes, escuros e tristes existentes dentro de mim, e já vividos numa dimensão de terror semelhante à do Inquilino principalmente sob efeito de ácido. E (até quando?) sob vigilância constante, sob controle, em tratamento (eficaz?).
Caio Fernando Abreu - Carta a Luiz Fernando Emediato)
<3
Não fique pensando em mim, não fique esperando nada de mim, não invente estórias. Eu preciso ficar sozinho algum tempo e deixar que naturalmente tudo se tranqüilize dentro de mim. Para então ver o que eu posso realmente dar a você ou a qualquer outra pessoa. No momento não tenho mesmo nada. Só coisas escuras. Prefiro guardar comigo.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Sem conseguir evitar, novamente o médico pensou nas estrelas cadentes e nas prováveis cismas daquelas cabeças queimadas, quase uniformes em seus olhos esverdeados de sol, suas roupas esfarrapadas, seus gestos precisos e poucos , embora marcados pela lentidão do cansaço — o cansaço dos que esperavam por um acontecimento indefinido, capaz de fazê-los movimentarem-se subitamente com mais vontade, talvez com medo. Precisavam do temor como quem precisa de um sentido.
(Caio Fernando Abreu. O Afogado, in: O Ovo Apunhalado)
Estou todo sensível, as coisas me comovem. Tenho regressões a estados antigos, às vezes, mas reajo, procuro me manter ligado às coisas novas que descobri. Mas tudo fica e se sucede — quase nunca dá tempo de você se orientar, escolher — não gosto de me sentir levado — e aqui não dá tempo.
(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)
PS — (Adoro PSs: às vezes o PS é tudo numa carta). Como dizia Clarice Lispector arrematando A hora da estrela e a sua própria vida: “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim.”
PS 2 — Seja como for, torno a descobrir que a literatura, essa deusa-cadela, é a coisa que mais tenho amado na vida.
PS 3 — Se Deus quiser, tudo, tudo, tudo vai dar pé. Outro beijo.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido)
(…) recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousastes definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso bala ou pura magia, interceptou o círculo do outro. (Caio Fernando Abreu. Natureza Viva. In: Morangos Mofados)
“(…) e sorrisse pensando em todos os monstros que ele carregava consigo sem jamais mostrá-los a ela, que dizia não ter tocado em nada, toda de preto, apenas aquele camafeu de marfim no pescoço (…)”
(Caio Fernando Abreu. “Visita”, in: O Ovo Apunhalado)(Source: caiofernandoabreu)
Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.
Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.
(Caio Fernando Abreu. “O dia que Júpiter encontrou Saturno”, in: Morangos Mofados)



