Biografia. | Sobre este tumblr.

12 de setembro de 1948 - 25 de fevereiro de 1996. Santiago do Boqueirão, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Estocolmo, Londres. Dramaturgo, escritor, jornalista.

Por @odharacaroline | meu tumblr

Cartas | Pequenas Epifanias | Pedras de Calcutá | Morangos Mofados |Inventário do Ir-remediável | Os Dragões Não Conhecem O Paraíso | O Ovo Apunhalado

Terça-feira:

Quando saí, pela manhã, procurei por ele.  Queria convidá-lo para tomar a média comigo no bar da esquina. Mas não o vi. Ontem à noite fez frio. Ouvi dizer que eles dormem na praia. De madrugada fiquei pensando nele, estendido na areia sobre aquele casaco militar puído que ele tem. Senti muita pena e não consegui dormir. Foi difícil trabalhar hoje. Percebi que a  secretária tem as pernas peludas e o chefe está muito gordo. Sei que isso não tem importância, mas não consegui esquecer o tempo todo. De tardezinha, ele me esperou na esquina. Disse:  hoje é o quarto. Faltam três , eu respondi. E senti um aperto por dentro. Tem uns ol hos escuros que ficam fixos, parados num ponto, do mesmo jeito que as mãos no ar. A  calça está rasgada no joelho. Nunca o vi falar com ninguém. Os outros ficam sempre em grupo, falando baixinho, olhando com desprezo para os de terno e gravata como eu. Ele está sempre sozinho. E não me olha com desprezo. 

Terminou de desenhar e me ofereceu uma margarida junto com o papel. Eu nem tinha reparado que havia margaridas na pr aça. Para falar a verdade, acho que nunca tinha visto uma margarida bem de perto.  Ela é redonda. Não exatamente redonda, quero dizer, o centro é redondo e as pétalas são comp ridas. O centro é amarelo, cheio de grãos. As pétalas são brancas. Coloquei num c opo com água e um comprimido dissolvido dentro, disseram que faz a flor durar mais. O retrato é muito feio. Não que seja malfeito, mas é muito velho, tem uma expressão triste, cinzenta. Fiquei surpreso. Cheguei a sentir medo de me olhar no espelho. Depois olhei. Vi que é a minha cara mesmo. Acho que ele caprichou mais no primeiroporque não me  conhecia: agora que sou freguês pode me retratar como realmente sou. Percebi que  as vizinhas me observavam quando eu falava com ele.

(Caio Fernando Abreu. Retratos, in: O Ovo Apunhalado) 

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