Ele não disse nada. Estava começando a ficar nervosa.
— Paris, por exemplo, fale-me de Paris.
— Paris não é uma festa — ele disse baixo e sem nenhuma entonação.
(Caio Fernando Abreu - Paris não é uma festa, In: Pedras de Calcutá)
André enlouqueceu ontem à tarde. Devo dizer que também acho um pouco arrogante de minha parte dizer isso assim — enlouqueceu —, como se estivesse perfeitamente seguro não só da minha própria sanidade mas também da minha capacidade de julgar a sanidade alheia.
(Caio Fernando Abreu. Uma História de Borboletas, in: Pedras de Calcutá)
(Source: caiofernandoabreu)
Apenas já não somos mais crianças e desaprendemos a cantar. As cartas continuam queimando. Eu tentei pensar em Deus. Mas Deus morreu faz muito tempo. Talvez se tenha ido junto com o sol, com o calor. Pensei que talvez o sol, o calor e Deus pudessem voltar de repente, no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. Mas eles não voltarão. Seria bonito, e as coisas bonitas já não acontecem mais.
(Caio Fernando Abreu. Holocausto, in: Pedras de Calcutá)
Sugestão de everythingremindsmeofyou.
(Source: caiofernandoabreu)
Después, foi até o banheiro, apanhou o batom ciclamen e riscou fuerte no espelho: Sally doesn’t live here anymore. Cheirou duas ou três carreiras e, antes de sair, ainda teve tempo de jogar contra os ladrilhos a velha seringa manchada de sangre.
(Caio Fernando Abreu. A verdadeira estória de Sally Can Dance and the Kids, in: Pedras de Calcutá.)
Nos misturamos confusos, sem nos olhar nos olhos. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —, mas, quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro, são de criança assustada esses olhos. Cão batido, rabo entre as pernas.
(Caio Fernando Abreu. Garopaba, mon amour, in: Pedras de Calcutá)
(Source: caiofernandoabreu)
Além disso, eu tinha desaprendido completamente a sua linguagem, a linguagem que também tive antes, e, embora com algum esforço conseguisse talvez recuperá-la, não valia a pena, era tão mentirosa, tão cheia de equívocos, cada palavra querendo dizer várias coisas em várias outras.
(Caio Fernando Abreu. Uma história de borboletas, in: Pedras de Calcutá)
(Source: caiofernandoabreu)
— O que fizeram de nós?
Tentou apontar as cercas, talvez as jaulas, o lixo cobrindo a grama. Mas não conseguiu. Apenas soluçava e repetia:
— Eu tenho ódio. Eu tenho muito ódio.
(Caio Fernando Abreu. Zoológico Blues, in: Pedras de Calcutá)
(Source: caiofernandoabreu)
Depois os dois se abraçaram e se deram beijos nas duas faces e como duas pessoas que não se vêem há muito tempo atropelaram perguntas como: por onde é que tu anda, criatura, ou exclamações como: mas tu não mudou nada, ou reticências tão demoradas que as filas chegavam a deter-se um pouco, as pessoas reclamando e uma hesitação entre mergulhar nas gentes entre um beijo e um me telefona qualquer dia e ficar ali e convidar para qualquer coisa, mas um medo que doesse remexer naquilo, e tão mais fácil simplesmente escapar que chegou a dar dois passos. Ou três.
(Caio Fernando Abreu. Aconteceu na praça XV, in: Pedras de Calcutá)
Não entendia direito, mas era tão bonito que acompanhava com o dedo, palavra por palavra, enquanto a chuva caía — he is always intoxicated with the madness of ecstatic love, um pensamento maligno em direção às visitas fugitivas, bem feito, a chuva desmancharia penteados e mancharia panos — he is always intoxicated… —, quem sabe um chá?
(A verdadeira estória de Sally can dance, in: Pedras de Calcutá)
(ele achou engraçado, mas foi assim mesmo que ela disse, acentuando tanto a palavra que ele percebeu que o jeito dela falar não tinha mudado nada, sempre ironizando um pouco o próprio vocabulário e carregando de intenções o que a ela mesma parecia meio ridículo)
(Aconteceu na Praça XV, in: Pedras de Calcutá)
Tinha vontade de vomitar, e não vomitava. Vontade de gritar e não gritava. Gentil, amável, tolerante e sem sexo, os patins dominando a lisa passarela, em gestos graciosos como os de um trapezista após o salto, mas nunca mortal a ponto de qualquer queda não ser prevista ou amparada por uma sólida rede de amenidades, e a grande merda, e o indisfarçável medo emboscado nas paredes do apartamento, e os inúteis cuidados, e a cama vazia no fundo do quarto, os dedos ansiosos, o ruído dos carros filtrado pelas paredes, a campainha em silêncio, algum livro e depois o poço viscoso. Algum cigarro, nenhum ombro, alguma insônia, nenhum toque, um último acorde de violino, e depois o sono, e depois.
(Pedras de Calcutá, in: Pedras de Calcutá)
E tudo é natural, basta não teres medos excessivos — trata-se apenas de preservar o azul das tuas asas.
(Uma história de borboletas, in: Pedras de Calcutá)
As pedras frias do chão da cozinha, rolar nua neste chão, qualquer dia faço uma loucura, faz nada, você está nessa marcação faz mais de dez anos. Mais de dez anos. A gente se entrega nas menores coisas.
(Até oito, a minha polpa macia, in: Pedras de Calcutá)
Sally, q no fundo sempre foi apenas una lovely teenager, seguindo os conselhos de sua amiga Gilda, adestrava-se em equilibrismos a ponto de, antes de optar definitivamente pelo silêncio y portanto tornar-se una sombra, conseguir manter duas discussões simultâneas com la madrecita y the brother-sister, sustentando pontos de vista absolutamente contraditórios, sem q nenhum de los dos percebesse.
(A verdadeira estória de Sally can dance, in: Pedras de Calcutá)
Qualquer dia entra janela adentro, ninguém pode fazer coisa alguma.
(Até oito, minha polpa macia)