Eu queria ir pra um lugar onde eu tivesse uma sensaçãozinha, ilusória que fosse, de que tinha alguém prestando atenção em mim.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido )
“Mas nada faço. Permaneço em pé no meio do quarto e a porta se fecha sobre mim. E vejo os telhados onde jogávamos migalhas de pão para os passarinhos, escondidos para não assustá-los, até que eles viessem, mas não vinham nunca, era difícil seduzir os que têm asas, já sabíamos, mas ainda assim continuávamos jogando migalhas que a chuva dissolvia, intocadas.”
Caio Fernando Abreu. Visita, in: O Ovo ApunhaladoE isso eu não vou permitir, querida Sampa: que nenhuma cidade, pessoa ou instituição acabe com essas coisas muito clarinhas e muito limpinhas (talvez por isso meio bobas, mas que se há de fazer? São elas que me mantêm vivo) resistindo aqui dentro de mim.
(Calamidade Pública. In: Pequenas Epifanias)
(Source: caiofernandoabreu)
Todo mundo se queixa. Mas há — estranho — alguma dignidade no ar. Tipo: continuamos caindo, mas caindo em pé.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Gerd Hilger)
É triste, porque chega ao fim mais um ciclo que não se repetirá — mas é bom porque todos estão tão machucados, tão…
(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)
E depois delas, passaram-se anos. Aqueles, em que se perderam, sem terem chegado a se encontrar.
(Caio Fernando Abreu. Saudades de Audrey Hepburn, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
“O que eles deixaram foram estes três postulados: importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias.”
Caio Fernando Abreu. “Eles”, in: O Ovo Apunhalado
Aliás, já te escrevi inúmeras vezes — mas nunca enviei. Faço isso muitas vezes (ninguém tem tantas cartas não-enviadas na gaveta como eu) —, às vezes por autocrítica exagerada, insegurança, falta de tempo, sei lá.
(Caio Fernando Abreu. Carta a João Silvério Trevisan)
Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
“Eu? Eu não tenho importância, não procure saber nada sobre mim porque ninguém saberá dizer, nem eu próprio, estou apenas contando esta história que não é minha e a que assisti como todos os outros habitantes da vila assistiram, talvez com um pouco mais de lucidez, eu, mas de qualquer forma, embora a bomba esteja nas minhas mãos, estamos todos no mesmo barco, no mesmo beco.”
Caio Fernando Abreu. “Eles”, in: O Ovo Apunhalado
Preciso machucar um pouco mais meu coração, doer um pouco mais meu corpo, fatigar meus olhos, leio Rimbaud e Cesar Vallejo, um peruano que morreu em Paris, com aguaceiro.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do in-consciente.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido)
Tenho medo de te ferir. Mas acho que precisamos “falar seriamente”. Desculpe, mas acho que sim, sem fantasia, sem comicidade. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não estará projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Abriu a porta e desceu as escadas contando degraus, a mão amparada pelo corrimão de madeira descascada, sem a menor pressa. Porque na realidade — dizia-se, e estava tão acostumado a esse diálogo consigo mesmo que movia os lábios como se falasse, embora sem produzir nenhum som —, porque na realidade jamais acontecera alguma coisa naquele lugar. Alguma estrela cadente durante as noites comprimidas entre o cheiro vagamente apodrecido da maresia e o calor vi scoso que vinha das montanhas — e nada mais que isso. As cadeiras dispostas em desordem sobre as calçadas, um sem-número de olhares de repente acompanhando o roteiro daquela chispa brilhante que cessava de existir e, ao mesmo tempo em que morria, permitia-lhes fazerem três pedidos, remotas superstições, velhos mitos: três desejos. Como se fosse possível desejar alguma coisa naquele lugar, suspirou antes de transpor a soleira da porta para ganhar a rua cheia de passos e gritos.
(Caio Fernando Abreu. “O afogado”, in: O Ovo Apunhalado)
Mas, talvez pela educação que recebi e toda aquela estória de “o-trabalho-dignifica-o-homem” ter ficado cravada muito fundo no meu subconsciente, no fundo da maior exaustão sempre descubro um prazerzinho.
(Caio Fernando Abreu - Carta a Luiz Fernando Emediato)


