Eu queria ir pra um lugar onde eu tivesse uma sensaçãozinha, ilusória que fosse, de que tinha alguém prestando atenção em mim.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido )
Todo mundo se queixa. Mas há — estranho — alguma dignidade no ar. Tipo: continuamos caindo, mas caindo em pé.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Gerd Hilger)
É triste, porque chega ao fim mais um ciclo que não se repetirá — mas é bom porque todos estão tão machucados, tão…
(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)
Aliás, já te escrevi inúmeras vezes — mas nunca enviei. Faço isso muitas vezes (ninguém tem tantas cartas não-enviadas na gaveta como eu) —, às vezes por autocrítica exagerada, insegurança, falta de tempo, sei lá.
(Caio Fernando Abreu. Carta a João Silvério Trevisan)
Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Preciso machucar um pouco mais meu coração, doer um pouco mais meu corpo, fatigar meus olhos, leio Rimbaud e Cesar Vallejo, um peruano que morreu em Paris, com aguaceiro.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do in-consciente.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido)
Tenho medo de te ferir. Mas acho que precisamos “falar seriamente”. Desculpe, mas acho que sim, sem fantasia, sem comicidade. Me pergunto sempre se você não teceu em volta de mim uma porção de coisas irreais — se você não estará projetando em mim qualquer coisa como um príncipe encantado — esperando a minha volta como quem espera a salvação.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Mas, talvez pela educação que recebi e toda aquela estória de “o-trabalho-dignifica-o-homem” ter ficado cravada muito fundo no meu subconsciente, no fundo da maior exaustão sempre descubro um prazerzinho.
(Caio Fernando Abreu - Carta a Luiz Fernando Emediato)
Em Londres, a última moda são roupas dos anos 30 — casacos com ombreiras, calças largas, boquinhas de coração. A gente encontra de tudo pelas ruas, e ninguém olha, ninguém faz comentários — tudo é encarado com a maior naturalidade.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Zaél e Nair Abreu)
Tenho chegado a extremos que não me julgava capaz. E como isso dói.
(Caio Fernando Abreu, carta a Hilda Hilst)
Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay caminos. Pero el camino se hace al andar”.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido)
E essa paranoia, essa desconfiança, esse medo do outro tem sido meu leitmotif nos últimos tempos. Vem de fora pra dentro — porque a cidade grande, o trabalho no jornal, o ninho de cobras da, aarrgh!, vida-literária só fazem aumentar isso; mas vem também — e isso é que me assusta — de dentro pra fora, de núcleos doentes, escuros e tristes existentes dentro de mim, e já vividos numa dimensão de terror semelhante à do Inquilino principalmente sob efeito de ácido. E (até quando?) sob vigilância constante, sob controle, em tratamento (eficaz?).
Caio Fernando Abreu - Carta a Luiz Fernando Emediato)
Não fique pensando em mim, não fique esperando nada de mim, não invente estórias. Eu preciso ficar sozinho algum tempo e deixar que naturalmente tudo se tranqüilize dentro de mim. Para então ver o que eu posso realmente dar a você ou a qualquer outra pessoa. No momento não tenho mesmo nada. Só coisas escuras. Prefiro guardar comigo.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
Estou todo sensível, as coisas me comovem. Tenho regressões a estados antigos, às vezes, mas reajo, procuro me manter ligado às coisas novas que descobri. Mas tudo fica e se sucede — quase nunca dá tempo de você se orientar, escolher — não gosto de me sentir levado — e aqui não dá tempo.
(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)

