Mas eu prefiro pensar que essa melhora inexplicável seja uma prova da existência de Deus, e de que ele me protege. Ou Deus ou bons espíritos, não sei. Certas coisas são tão evidentes, apesar de inexplicáveis, que a gente não pode deixar de acreditar.
(Caio Fernando Abreu, carta a Zael e Nair Abreu)
“Mas perigos sempre há, desde que se saiu do útero, e até antes, durante imagino que muito mais.”
Caio Fernando Abreu. Carta a Jacqueline Cantore.
(Source: caiofernandoabreu)
Ando meio ofendido com certas coisas — como o diretor marcar uma reunião pras 9 da manhã, eu e os outros chegamos antes das 9, e ele só pinta às 10 e meia, muito apressado, falando que a revista tá péssima, coisas assim. Falou que tínhamos que reduzir os textos, aumentar as fotos e o visual, que “o leitor não gosta de ler”. Eu disse que tinha irmãs adolescentes que adoravam ler, e que achava que a gente não devia colaborar com a alienação. Ele me chamou de obsoleto, eu fiquei puto e repliquei que minha formação foi feita antes de 64, e que se ele achava que cultura e leitura eram coisas obsoletas então íamos muito mal — e que se ele tava a fim de colaborar com o processo de castração mental da juventude brasileira pós-64, eu não estava. Por aí foi. Numa certa altura, até a senhora acabou entrando na briga. Ele disse que meus títulos pareciam livro antigo de História. Eu falei “minha mãe é professora de História, eu estudei muita História e se a juventude de hoje não sabe nem quem foi Getúlio Vargas é porque não se estuda mais História”. Voou pena. Suei, gritei. Todo mundo quieto em volta. Aí resolvi calar a boca. Afinal, como na fábula do lobo e do cordeiro: contra a força não há argumentos.
(Caio Fernando Abreu, carta a Nair Abreu. Grifos meus.)
(Source: caiofernandoabreu)
Vontade de não saber perdoar, de não ser compreensivo tolerante — de não me contentar com o pouco — “amor malfeito, depressa, fazer a barba e partir”.
(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)
“Hay que tener cojones e braço forte pra segurar um bom astral todo dia. A gente tem, e se não tem Deus dá, e se Deus não dá a gente inventa, você sabe.”
Caio Fernando Abreu, carta a Maria Lídia Magliani
(Source: caiofernandoabreu)
Sinto que toda aquela carga de angústia e inquietação que eu tinha está-se indo. Quero muita calma daqui pra frente.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Nair Abreu)
Claro que me dá um puta medo de estar me transformando numa criatura intoxicada de palavras escritas — tenho visões futuras onde me vejo fechado num lugar com as parede cobertas de livros, quem sabe gatos, um som e mais nada. Meu coração tá ferido de amar errado, você me entende?
(Caio Fernando Abreu, carta a João Silvério Trevisan )
Que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia numa rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural — se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra.
(Caio Fernando Abreu, carta a Vera Antoun)
Você sabe, estou saindo de um momento muito escuro, então tenho procurado não deixar que as minhas dores pessoais — do meu ponto de vista: enormes — interfiram no meu viver objetivo.
(Caio Fernando Abreu - Carta a Luiz Fernando Emediato)
Reli teu Viegas neon: sabe que ele me explica um pouco o meu fascínio por Sampa? E toda vez que releio, me dá um medo de acabar crucificado dentro de uma garrafa. Será que é isso que a cidade faz com a gente? Uma coisa que eu acho que conta quando a gente se compreende é o fato de você ter nascido em Cambuquira e eu em Santiago do Boqueirão. Zézim, vezenquando me dá um ódio de São Paulo e da grande cidade, e depois uma cidade pequenininha me dá uma coisa n’alma, sabe como? uma sensação de estar longe demais de tudo. Vezenquando eu penso que da cidade pequena pra cidade grande alguma coisa se perdeu dentro da gente — me sinto como uma coluna vertebral sem uma vértebra, portanto insustentável. Daí vou pensando um pouco mais nisso e então me dói mais fundo, porque me parece irremediável, inconsertável, insubstituível esse elo, essa vértebra perdida.
(Caio Fernando Abreu, carta a José Márcio Penido)
(Source: caiofernandoabreu)
Me conta de ti. Não devemos-nos perder, somos tão poucos, meu amigo. Cuide de você, não sofra sem necessidade, Me queira bem. Te quero bem.
(Caio Fernando Abreu. Carta a João Silvério Trevisan )
(Source: caiofernandoabreu)
Jocastamente: não fique trancado demais em casa, atenda o telefone e vá sempre que puder ver o pôr-do-sol na pracinha do Alto de Pinheiros. Se alguma vez, por descuido ou coisa assim, ouvir It’s impossible, pense em mim. Ou não. E se a saudade bater, escreva uma carta que pode ser cheia de queixas, ou cheia de sol. Será bem-vinda.
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido)
(Source: caiofernandoabreu)
Tudo isso dói. Mas eu sei que passa, que se está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois.
(Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun)
“E também não me importo de tentar ajudar as pessoas — se elas não sabem corresponder, é problema delas. Não é por isso que vou virar uma naja.”
Caio Fernando Abreu. Carta a Cláudia Abreu.
(Source: caiofernandoabreu)







