E depois delas, passaram-se anos. Aqueles, em que se perderam, sem terem chegado a se encontrar.
(Caio Fernando Abreu. Saudades de Audrey Hepburn, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
Já que não tentaria o suicídio pela quinta vez - nem sequer con-se-cu-ti-va, enumerou -, já que fora dispensado após tantos anos de análise, já que a crise permanente parecia ser a forma mais estável de sobreviver, já que ninguém lembrara de assassiná-lo nem pedi-lo em casamento, já que podia olhar em volta e em menos de um minuto escolher alguém para conversar dizendo coisas como você anda sumido(a), e aí, conta mais, diga lá, toma outra - em nome disso, prosseguia, embora sem saco.
(Caio Fernando Abreu. “Saudades de Audrey Hepburn”, in: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)
De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida - reconheceu, compenetrado.
(Saudades de Audrey Hepburn, in: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)
E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O Verdadeiro Amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara.
(Dama da noite, in.: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)
Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo. Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende.
(Caio Fernando Abreu. “O destino desfolhou”, in: Os dragões não conhecem o paraíso)
Há muitas outras coisas que se poderia dizer sobre esse homem nesta noite turva, neste bar onde agora entra, na cidade que um dia foi a dele. Mas parado aqui, no fundo do mesmo bar em que ele entra, sem passado, porque não têm passado os homens de quase quarenta anos que caminham sozinhos pelas madrugadas - todas essas coisas um tanto vagas, um tanto tolas, são tudo o que posso dizer sobre ele. Assim magro, molhado, meio curvo de magreza, frio e estranhamento. O estranhamento típico dos homens de quase quarenta anos vagando pelas noites de cidades que, por terem deixado de ser as deles, tornaram-se ainda mais desconhecidas que qualquer outra.
(Caio Fernando Abreu, “O Rapaz Mais Triste do Mundo”, in: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)
(Source: caiofernandoabreu)
Mas se te torturas tanto a cada manhã, desligando sem sentir o despertador para que não te jogue bruscamente no centro de um mais um dia a ser preenchido unicamente pelo que conseguires inventar, por que não participar então de um curso qualquer de inverno? Algo como “Mandalas Alquímicos e a Arquitetura das Catedrais Góticas”, “Prefixos Sânscritos na Obra de Guimarães Rosa”, ou ainda “Premonições Pós-Modernas no Cinema de J. B. Tanko”.
(Caio Fernando Abreu. Saudades de Audrey Hepburn, in: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)
tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, (…)
(Caio Fernando Abreu. À beira do mar aberto, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
Perdidos, perderam-se, perdeu-se - e foi pelos viadutos que se perdeu. Um livro nas mãos, debatendo-se para não ser afogado, indeciso entre voltar e seguir em frente, porque havia fogueiras pela noite, embora ainda não soubesse delas.
(Caio Fernando Abreu. Saudades de Audrey Hepburn, in: Os dragões não conhecem o paraíso.)
(Source: caiofernandoabreu)
De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrima chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo na boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.
(Caio Fernando Abreu. Sem Ana, Blues. In: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso)
(…) e pensa que pensa ou deveria pensar ou é como se pensasse qualquer coisa assim: porque é desse jeito mesmo que as pessoas se comportam quando não decifram nos olhos do outro nenhuma promessa ou convite.
(Caio Fernando Abreu. Saudades de Audrey Hepburn, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
QUANDO Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.
(Caio Fernando Abreu. Sem Ana, blues, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
Apertou o livro entre dedos subitamente frios, depois colocou-o no colo para ajoelhar-se e estender as mãos em direção ao fogo. Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias. Você indo embora. Eu indeciso entre beber um pouco mais ou procurar uma beata em plena devastação ou lavar copos bater sofás guardar discos mastigar algum verso adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar partir morrer dormir sonhar quem sabe. Você indo embora. Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca: mais frustração que ressaca, desgosto generalizado que aspirina alguma cura. Tocaria, o telefone? Você indo embora, fotograma repetido. Na montagem, intercalar. Você indo embora você indo embora.
(Caio Fernando Abreu. Saudades de Audrey Hepburn, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui ……………………………………………………………………………………………………
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(Caio Fernando Abreu. À Beira do Mar Aberto. In: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso.)
Porque nunca contei a ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.
(Caio Fernando Abreu. Sem Ana, blues, in: Os Dragões Não Conhecem O Paraíso)
(Source: caiofernandoabreu)











